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Bolsonaro, Copa América e #foratite: é possível separar futebol x política?

Desde o dia 1° de junho, data em que a CONMEBOL anunciou a realização da Copa América 2021 no Brasil após aval do Presidente Jair Bolsonaro, vem sendo impossível separar futebol e política. O anúncio foi feito após a Colômbia (por problemas civis) e a Argentina (por razões sanitárias) declinarem a sediar o evento em seus respectivos solos. 

Desse modo, o jeito que a entidade maior do futebol na América do Sul encontrou de realizar sua 47ª edição da competição continental foi recorrer ao país que tem a liderança mais conivente à realização do torneio. E deu o tiro certo (sob o ponto de vista de encontrar um país que topasse realizar a copa).

Outrossim, esse foi só o começo de uma discussão que passou a dividir opiniões sobre condescender ou não com o fato de ter mais esse evento esportivo no Brasil. E mais, a decisão passou a misturar (imediatamente) dois componentes comumente “dissociados”, mas que deixou claro que futebol e política inevitavelmente estão relacionados. E atualmente, polarizados também. 

Futebol x Política 

A guerra de narrativas invadiu tanto o Poder Executivo na figura do Presidente Jair Bolsonaro, seus filhos e seguidores, quanto o Poder Legislativo através de apelo do relator da CPI da Covid, o Senador Renan Calheiros, que interrompeu o interrogatório da médica Luana Araújo, no dia 02 de junho, para fazer apelo aos jogadores brasileiros e especialmente a Neymar para que não concordassem em jogador a Copa América, dentre outros manifestos vindos do Congresso Nacional. 

Pois bem! Dessa maneira, qualquer discurso adotado pela maior fatia da imprensa esportiva de que só se comenta futebol/esportes e não política, dessa vez poderia ter interpretação dupla ao se posicionarem se eram a favor ou contra a realização da competição no Brasil. E é impossível optar por um ou outro sem ter uma justificativa política, seja pela pandemia, apoio ao trabalho ou qualquer visão seja de qual lado for. 

Não bastasse a essa fatia da imprensa esportiva (a fatia que evita misturar os assuntos) ter que opinar por um dos lados, coube até aos mais afetados terem que se posicionar também. E ficou evidente no discurso do volante da Seleção Brasileira, Casemiro, que disse após a vitória de 2×0 sobre o Equador pelas eliminatórias da Copa, na sexta-feira, 4, que os jogadores se manifestariam após outro jogo das eliminatórias, contra o Paraguai, dia 8, em que o Brasil ganhou de 2×0 (Neymar e Lucas Paquetá). 

Entretanto, antes mesmo da partida em Assunção-PAR, os jogadores já haviam se manifestado que jogariam a Copa América, provavelmente em consequência do afastamento do Presidente da CBF, Rogério Caboclo, no domingo, 6, após denúncia de assédio sexual feita por uma secretária executiva da instituição.

Isso porque, de acordo com apuração do repórter Éric Faria, o cartola Rogério Caboclo estava ligado diretamente a uma das insatisfações dos jogadores e da comissão técnica que se sentiram traídos por não terem sido consultados antes da decisão de que a Copa América aconteceria no país. 

Neste ínterim, Jair Bolsonaro se manifestou algumas vezes em público afirmando que a competição aconteceria SIM no Brasil. Além disso, seu filho “Zero 1”, Flávio Bolsonaro, fez uma postagem em suas redes sociais chamando o técnico Tite de hipócrita e puxa-saco do ex-presidente Lula, afirmando que a intenção dele é boicotar o atual Presidente da República.

Nasceu aí então mais uma das incontáveis hashtags que viralizaram nas redes após alguma declaração de ataque do governo ou de alguém diretamente ligado a ele. A hashtag da vez que chegou ao top 10 Brasil foi #foratite e #titecomunista! Só para relembrar algumas outras tags viralizadas por simpatizantes do governo, as mais comuns foram: #globolixo #cnnlixo #foraglobo #stfvergonhamundial #foraalexandredemoraes #renanvagabundo #lulaladrao e por aí vai.

Tite vai cair? 

O comandante gaúcho de 60 anos está com o cargo ameaçado, talvez até mais do que esteve após a derrota de 2×0 para a Bélgica nas quartas de finais da Copa do Mundo de 2018, quando essa polarização política pré-pandemia ainda era um tanto mais branda. 

Enquanto isso, o GE e a BAND revelaram que a CBF entrou em contato com o governo federal para consultar se a Copa América poderia acontecer no Brasil. Em retribuição, a entidade máxima do futebol brasileiro fez contato com o técnico Renato Gaúcho (que já fez manifestações alinhadas à ideologia com o atual governo) a fim de contratá-lo no lugar de Tite, declaradamente alvo de (pelo menos) um dos Bolsonaro. 

O que não esperavam é que neste meio tempo, Caboclo seria afastado da presidência da CBF pelo conselho de ética em decorrência da denúncia de assédio. E, conforme já citado, este afastamento foi crucial para que os jogadores tivessem voltado atrás da decisão e decido defender a Canarinho no torneio entre as seleções. 

Qualquer semelhança é mera coincidência

Outra prova de como é difícil separar futebol e política é que esse alinhamento da Presidência da República com a CBF tem precedente. Há certa semelhança dele com um fato ocorrido às vésperas da Copa do Mundo de 1970, disputada no México. A Copa do Tri, inclusive! 

Em fevereiro de 1969 (período da ditadura militar) o então presidente da Confederação Brasileira de Desportos, João Havelange com o consentimento do Presidente da República Costa e Silva (o segundo militar à frente da presidência desde o golpe de 1964), havia optado (junto à sua comissão) em contratar como técnico o jornalista João Saldanha. Dentre os motivos pela contratação, estava a popularidade e propriedade no assunto por parte do jornalista, bem como a ideia de amenizar o massacre da imprensa por ver no comando técnico um dos seus. 

A questão é que João “Sem Medo” Saldanha era filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Porém, Costa e Silva faleceu e em seu lugar assumiu o intolerante Emílio Garrastazu Médici, nada contente com um comunista no comando da Seleção Brasileira.

Assim sendo, Médici tentou interferir diretamente na convocação indicando jogadores de sua preferência, em especial o atacante Dadá Maravilha, do Atlético Mineiro. No entanto, Saldanha não acatava as interferências externas. O estopim para sua saída às vésperas da Copa foi uma declaração que deu a um jornalista dizendo “nem eu escalo o ministério, nem o Presidente escala o time”.

Assim, então, Saldanha foi retirado do cargo e em seu lugar foi colocado Mário Zagallo, bicampeão Mundial como jogador (1958 e 1962). Porém, o trabalho de João Saldanha era tão eficiente e o Brasil tinha tantas estrelas que conquistou a terceira Copa do Mundo com a base semelhante àquela montada pelo jornalista, porém em esquema diferente. Enquanto o primeiro aplicava o 1-4-2-4, Zagallo aderiu ao 1-4-3-3. 

E o Dadá Maravilha? Foi convocado, mas ficou na reserva! Até porque, aquela Seleção é conhecida por ter quatro camisas 10 atuando juntos: Gerson, Rivelino, Tostão e Pelé, e ainda tinha Jairzinho no ataque, não dava para o Dadá. Fosse qualquer outro técnico a assumir o cargo, como o caso de Dino Sani contatado antes de Zagallo, que se mantivesse a base montada por Saldanha, teria sido difícil de o Brasil não ser campeão. 

Trazendo para os dias atuais, assim como o igualmente gaúcho João Saldanha, o conterrâneo Tite igualou seu recorde ao vencer as seis primeiras partidas das eliminatórias. Assim como o técnico do passado, o professor da atualidade também está invicto, e ainda assim tem seu cargo à prova.

Será que toda essa exposição do Governo Jair Bolsonaro vale a pena se tratando da disputa do título de uma Copa América? Caso Tite saia da Seleção e venha o preterido Renato ou quem for, seria este bem aceito por aqueles contrários à tal ideologia política? Sim, aconteceu: este tema uniu futebol e política, e desta vez nada velado.

Tite já declarou em coletiva que dará seu melhor pela Seleção Brasileira tanto aos que são favoráveis à sua permanência, quanto aos que são contrários. A parte disso, é importante frisar que Renato Gaúcho é profissional e não tem nada a ver com as decisões políticas. Aliás, ele já foi cotado algumas vezes para assumir o time nacional enquanto esteve no auge enquanto treinava o Grêmio. Porém, o momento é outro. O debate é outro.

Seja qual for o desfecho desse imbróglio, por mais retrógrado que pareça a comparação de passado x presente, é inegável que diversas coincidências vêm acontecendo dos governos de 1964/1985 com o presente, e isso que estamos falando de futebol apenas. Que parem por aí, ou que seja a próxima coincidência somente a vinda do título da Copa do Mundo e olhe lá!

4 thoughts on “Bolsonaro, Copa América e #foratite: é possível separar futebol x política?”

  1. Excelente texto!!
    Estudamos a história justamente para entender o presente e aprender com os erros cometidos no passado, assim com foi errada a interferência em 69 seria errada se cometida em 2021. #ficatite #titepresidente

  2. Raul K Sampaio

    Que momento estamos vivendo🙏
    Renato no comando sinto cheiro do Hexa! Kkkkk
    Seria muita sacanagem com Tite, logo o cara do MERECIMENTO!

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