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Futebol x política #2: O começo e o fim da União Soviética em Copas e Olimpíadas

Caso ainda não conheça esse tema, provavelmente você já viu em algum lugar as letras CCCP ou URSS estampadas, seja em camisetas (principalmente nas retrôs de futebol), livros, jogos, grafites e afins. Essas letras significam União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, ou simplesmente Союз Советских Социалистических Республик em russo. 

A antiga União Soviética (liderada pela atual Rússia) participou de Olimpíadas e Copas do Mundo ao longo de sua existência (1922 – 1991). O intuito da nação comunista em competições esportivas era nada menos do que juntar os melhores atletas de cada “país-membro” para formar uma supernação vencedora a fim de chamar a atenção do mundo mostrando o quanto os reflexos daquele regime eram “bem-sucedidos”. 

Tal regime acreditava tanto no esporte como um meio importante para promover sua popularidade que fundou sua própria Olimpíadas, nomeada Spartakiadas em menção ao antigo escravo romano Espártaco globalmente conhecido por ter sido o líder na revolta contra a República Romana por volta das décadas de 80 e 70 a.C. 

Deste modo, logo após o êxito Bolchevique pós Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a União Soviética passou a integrar a FIFA em 1946, assim como o Comitê Olímpico Internacional (COI) em 1961. Como o foco desta abordagem é precisamente sobre futebol versus política, então seguiremos dentro das linhas futebolísticas. 

Vale ressaltar que o embrião da nação soviética (Rússia) já respirava futebol desde os anos 1910 com a fundação de clubes tradicionais e que tiveram participações diretas de operários, sindicatos e até do exército, como o CSKA Moscou (1911), o Spartak (1922), o Lokomotiv (1922) e o Dínamo de Moscou (1923).  

Domínio Público

Aliás, uma estratégia bem traçada dos soldados vermelhos para aproximarem-se do povo foi eliminar a cultura de esportes individuais que estavam mais ligados à autarquia (com algumas exceções como as lutas), e priorizarem os esportes coletivos, a união e resultados em equipe: caso do futebol, por exemplo. 

Introdução básica sobre a formação da União Soviética 

Poster de propaganda: Karl Marx, Friedrich Engels, Lenin and Stalin, 1953. (Apic/Getty Images)

Seria impossível abordar o esporte sem ter a mínima noção política do que foi o regime soviético, então vamos adentrar um pouco nessa seara. Prosseguindo, o surgimento da União das Repúblicas Socialistas Soviética se deu a partir da Revolução Russa, em março de 1917, em decorrência da insatisfação da massa operária e camponesa contra o comando autoritário do Imperador Nicolau II. 

Com manobras de massificação e comoção popular, o partido comunista Bolchevique se destacou dentre os demais, e através de articulações comandadas pelo líder Vladimir Lenin, deu o golpe final que culminou na queda da monarquia conduzindo o czar a abdicar do poder.

Ao assumir o controle do país, o Partido Vermelho instaurou a ideologia estatal do marxismo, iniciando assim um novo regime governamental que fundou a primeira nação socialista do mundo, a União Socialista Federativa Soviética Russa, unindo-se futuramente – a partir de dezembro de 1922 – às Uniões Socialistas Soviéticas da Ucrânia, Bielorrússia e Transcaucásia (Armênia, Azerbaijão e Geórgia), consolidando assim a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. 

Lenin e Stalin, líderes do Partido Bolchevique (Getty Image)

Como a nação russa era a maior e mais poderosa às demais, tornou-se o centro das uniões soviéticas, sendo Moscou naturalmente a capital, centralizando o poder em Lênin (22 de abril de 1870 – 21 de janeiro de 1924) como figura máxima na escala hierárquica. Na sequência, outras nove nações foram agregadas ao bloco que formou o maior país do globo. 

Além dos já citados, os demais países-membros da URSS foram: Estônia, Cazaquistão, Quirguistão, Letônia, Lituânia, Moldávia, Tajiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão. Vale ressaltar que a União Soviética foi uma das protagonistas da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945) e junto com os países aliados (Reino Unido, França e Estados Unidos), saiu vitoriosa sobre os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Neste período, o líder máximo soviético que conduziu o exército vermelho à “glória” foi Josef Stalin (18 de dezembro de 1878 – 5 de março de 1953), para muitos um herói nacional. 

Propaganda dos soviéticos para manter a moral alta para resistir à invasão nazista (Getty Images)

Depois disso, o país foi o principal rival dos Estados Unidos durante a Guerra Fria (1947 – 1989), medindo forças entre o socialismo e o capitalismo. Dessa maneira, considera-se que o famigerado Estado que aderiu à bandeira vermelha com um martelo e uma foice cruzados (em simbologia aos trabalhadores das fábricas e do campo), existiu de 1922 a 1991, extinguindo-se com a queda do socialismo. Consequentemente, com o desmembramento, cada país voltou a ter sua própria administração e seu próprio regime.

Voltando ao futebol… como começou o respeito dentro das quatro linhas? 

Dada a introdução política básica tanto sobre a formação como do que foi a União Soviética e voltando a relacioná-la ao futebol, não é errado considerar que os vermelhos formaram um exército poderoso também dentro das canchas, não à toa eram conhecidos pelo futebol “científico” dada a forma técnica e organizada de se jogar. Depois de se firmarem no cenário europeu, e consequentemente global, o time nacional soviético passou a ser um dos mais temidos. 

Sputinik

Conforme relatou o jornalista russo Nikolai Chevtchenko ao portal Russia Beyond, a ascensão do futebol soviético teve início graças à Turquia. Isso porque os turcos saíram fragilizados das Olimpíadas de Paris, em 1924, por terem jogado apenas uma partida e precisavam se reafirmar. Então, tiveram a brilhante ideia de convidar a recém-formada e desconhecida URSS (na certeza da vitória) para readquirir a confiança. 

Depois que a Turquia recebeu a aprovação da FIFA, a partida foi realizada no território do adversário, em Moscou, no dia 16 de novembro de 1924. Então, surpreendentemente veio a vitória soviética por 3 a 0, e os bolcheviques aproveitaram o gancho para exaltar a vitória fazendo daquele feito uma bela jogada de marketing para o partido comunista. Ah, e ganha um doce quem adivinhar qual era a cor do uniforme que os soviéticos entraram em campo. Palpites?

Yuriy Somov/Sputnik

Com dificuldades de aceitar a derrota, os otomanos convocaram uma revanche, dessa vez em Ancara, no dia 15 de maio de 1925, mas não teve jeito: nova vitória da União Soviética por 2 a 1 na casa do adversário e, mais uma vez, houve a valorização do esporte coletivo vinculado ao regime. Desde então, a CCCP foi crescendo e ganhando notoriedade primeiro perante aos seus (via competições entre os países unificados), para então conquistar notoriedade fora do bloco. 

Os maiores feitos da URSS nas competições esportivas

Ivan Shagin/Sputnik

Considerando que a nação foi aceita pela Federação Internacional de Futebol (FIFA) em 1946, assim como pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) em 1961 (apesar de ter participações em jogos olímpicos via nações-membro antes disso), as grandes conquistas vieram relativamente rápidas. 

Posto isto, o primeiro grande feito da equipe futebolista da União Soviética foi a medalha de ouro de 1956, nas Olimpíadas de Melbourne, Austrália. Essa não foi a única, já que os bicampeões também subiram ao topo do pódio em 1988, em Seul, Coréia do Sul, quando venceram o Brasil na final por 2 a 1. Para fins comparativos, a Seleção Brasileira – pentacampeão mundial – ganhou seu primeiro ouro no futebol somente em 2016 – 60 anos depois do primeiro ouro soviético neste esporte. 

Além dos dois títulos olímpicos, outra grande conquista foi a Eurocopa de 1960, realizada na França. O triunfo veio após bater a Iugoslávia por 2 a 1 na final – outra nação extinta e igualmente de cunho comunista. Novamente para fins comparativos, até hoje há potências européias que ainda não venceram essa competição: exemplos de Inglaterra e Bélgica.  

Por fim, não bastasse os títulos importantes, ainda houve campanhas de destaque que justificam o quão temida/respeitada foi a supernação do leste europeu. Isso porque eles foram semifinalistas da Copa do Mundo de 1966 (4º lugar), quatro vezes finalistas da Eurocopa (além do título de 1960, foram vice-campeões em 1964, 1972 e 1988)  e ainda conquistaram três bronzes em Olimpíadas (1972,01976 e 1980), sem contar os inúmeros títulos internacionais das categorias de base.

Extinta em 26 de dezembro de 1991, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas ainda competiu nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992. Desse modo, as nações soviéticas representaram a Comunidade dos Estados Independentes. Mesmo o futebol não tendo levado medalha naquela edição, a comunidade independente terminou sua última olimpíada como a primeira colocada no quadro geral de medalhas.  Além do mais, ao todo foram oito Copas do Mundo e sete Eurocopas disputadas. 

Os grandes ídolos do futebol soviético 

Leonid Dorenskiy/Sputnik

A Seleção Soviética de Futebol era composta maioritariamente por jogadores da Rússia (47%), seguidos por jogadores da Ucrânia (31%), Geórgia (14%), sendo os outros 8% divididos entre atletas dos demais países-membros que compunham o bloco. Naturalmente, por ter mais relevância política dentro do regime, os russos eram sempre maioria nas divisões. 

Naturalmente, o maior nome do futebol soviético é russo! Lev Ivanovich Yashin (22 de outubro de 1929 – 20 de março de 1990) é considerado um dos melhores goleiros da história do futebol. Conhecido como “Aranha Negra” por usar uniformes pretos e aparentar ter vários braços para agarrar as bolas, ele foi o goleiro dos títulos dos Jogos Olímpicos de Melbourne (1956) e da Eurocopa (1960), somado a isso foi multicampeão com o Dínamo de Moscou (único clube que defendeu na carreira).   

Yashin tem até hoje seu nome ecoado no esporte, isso porque ele foi o único goleiro da história a ganhar a Bola de Ouro (1963). Inclusive, a renomada revista France Football criou, em 2019, o prêmio que leva seu nome para premiar o melhor goleiro da temporada. Além disso, foi nomeado o goleiro do século XX pela Federação Internacional de Futebol (International Football Federation – History and Statistics – IFFHS) e pela FIFA, como também recebeu a Ordem de Mérito, bem como foi incluído na equipe dos sonhos dos mundiais de futebol por esta mesma organização.

Oleg Vladimirovich Blokhin (Kiev, 5 de novembro de 1952) é outra figura memorável. O ucraniano foi o maior goleador da história do campeonato soviético com 211 gols. Ademais, contribuiu para que o Dínamo de Kiev, clube em que jogou de 1969 a 1988, conquistasse duas taças Europeias (1975 e 1986). Na campanha de 1975, seu destaque lhe rendeu a Bola de Ouro da France Football, tornando-se o segundo soviético a recebê-la (depois de Lev Yashin). No mais, foi o jogador com mais partidas e com mais gols da extinta nação, tendo disputado 112 jogos e marcado 42 gols pela equipe nacional. Blokhin também esteve presente nos bronze das Olimpíadas de 1972 (ano em que começou a defender o país) e de 1976.

Outros ídolos da geração soviética que merecem destaque são: Igor Netto (capitão do primeiro ouro olímpico e do título europeu), Grygory Fedotov (atacante e, posteriormente, treinador com maior destaque no CSKA de Moscou), Valentin Ivanov (um dos maiores goleadores do período, sendo superado apenas por Oleg Blokhin e Oleg Protásov. Também foi um dos artilheiros da Copa do Mundo de 1962), Slava Matreveli (georgiano que marcou um dos dois gols na final do título europeu de 1960 contra a Iugoslávia), Viktor Ponedelnik (marcou o outro gol sobre a Iugoslávia no título europeu), Eduard Streltsov (conhecido como Pelé Russo), Rinat Desayev (eleito melhor goleiro do mundo em 1988) e Igor Belanov (melhor jogador europeu pela France Football em 1986).

Confrontos (futebolísticos) contra o Brasil

A Seleção Brasileira teve sete confrontos com a Seleção Soviética de Futebol entre 1958 e 1982 (sem considerar Olimpíadas por ser outra categoria). Destes, cinco jogos foram amistosos, sendo os outros dois duelos de Copas do Mundo. Assim sendo, o Brasil venceu cinco vezes, perdeu uma e empatou outra. A única derrota do Brasil foi em amistoso realizado no Rio de Janeiro, vitória de 2 a 1 para os visitantes, em 15 de junho de 1980, em pleno Maracanã. O empate por 2 a 2 aconteceu no mesmo palco da derrota (no Maraca), em 21 de novembro de 1965, igualmente em jogo amistoso. 

Sobre as cinco vitórias brasileiras, três delas foram em jogos amistosos: 3 a 0 (1965 – Moscou), 1 a 0 (1973 – Moscou) e 2 a 0 (1976 – Rio de Janeiro). Já os dois duelos em Copas do Mundo foram literalmente épicos: o primeiro foi na Suécia, em 1958. Pelé e Garrincha estreavam em mundiais, apresentando ao mundo toda magia Canarinho. Depois disso, nada mais no futebol foi como antes e o Brasil terminou o torneio simplesmente como o campeão. Apesar da estreia dos gênios perenes da bola na terceira rodada do grupo D, os dois gols da vitória sobre os soviéticos foram marcados por Vavá (mais uma entidade do mundo da bola).

O outro encontro em mundiais foi na fabulosa e dolorida Copa de 1982, na Espanha. A Seleção Brasileira tinha quiçá a maior seleção a não ganhar um mundial, com craques de ponta a ponta, a se destacar Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo, Éder Aleixo, Chulapa dentre outros. Antes de perder na segunda fase de grupos para a Itália de Paolo Rossi (campeã daquela edição), a Canarinho superou os soviéticos num embate apertado da primeira fase, de virada por 2 a 1: Sócrates e Éder marcaram, Andrey Bal havia aberto o placar para os adversários.  

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