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Graças a D10s, Argentina recupera a autoestima da América do Sul

A Copa do Mundo 2022 foi atípica em diversos aspectos registrando acontecimentos que só poderiam ter acontecido no Catar. Um deles foi a retomada da América do Sul ao cenário global, com a brilhante conquista do tricampeonato mundial da Argentina. Para além desses, a primeira copa sediada no oriente médio contemplou os amantes do esporte bretão com feitos inquestionavelmente eternizados.

Sobretudo, a retomada da autoestima sul americana veio em boa hora, já que o continente não vencia a competição há 20 anos. Quis o destino que a declaração do jogador mais valioso (e badalado) da atualidade, Kylian Mbappe, francês, dada à Isabela Pagliari (TNT Sports) em setembro desse ano, de que os europeus têm equipes mais preparadas do que nós, e por isso quando chegam ganham (de acordo com as últimas edições), fosse desmentida. 

Justo ele, que fez um hat trick numa decisão dessa grandeza, em final histórica, feito só realizado até então pelo inglês Geoff Hurts na edição de 1966 contra a Alemanha Ocidental. Justo ele, único atleta a anotar quatro gols em finais de Copa do Mundo. Ele, artilheiro isolado desta edição com oito gols e segundo jogador mais jovem a marcar gol em final de Mundial e ser campeão (2018), atrás apenas de Pelé. O próprio, que parecia tão seguro de seu segundo título seguido com a França, que mesmo em campanha excepcional, não contava com a astúcia de outro gigante, originário do lado de cá do hemisfério.

Ainda dói, mas é necessário respeitar a Argentina e seu novo D10s do futebol

É claro que ainda dói a eliminação precoce (mais uma vez) do Brasil para uma seleção mediana como a da Croácia. Para que sete caras no ataque, faltando quatro minutos para o fim da partida? A bem da verdade, até hoje é difícil digerir a derrota do quadrado mágico em 2006 para a França, a de 2010 para a Holanda (essa é a que dói menos), aquela catástrofe de 2014 (7×1 para os alemães), e a queda de 2018 para a Bélgica.

Entretanto, desde o penta em 2002, somente os europeus haviam ganhado. E das últimas cinco edições, somente uma nação americana esteve em duas decisões, sendo todas as outras disputadas pelos europeus: foi ela a Argentina em 2014 contra a Alemanha, e a mesma, porém mais determinada, contra a França esse ano. 

De lá para cá o Brasil não subiu em mais nenhum pódio. Até os croatas subiram mais do que nós nesse século (um vice e um terceiro lugar), mas os irmãos alvicelestes fizeram as vezes do continente nesse período e desbancaram os adversários do velho continente. Mesmo com altos e baixos, eles lutaram até o fim. Caíram em pé em 2014, saltando cheios de energia para comemorar o tão sonhado tri em 2022. Dos quatro representantes do continente, foram eles que resistiram aos outros 28 países e cravaram o pin do globo na terra abundante em prata.

Particularmente, nunca aderi a esse sentimento tão alimentado pelo agora aposentado Galvão Bueno (máximo respeito, Galvão!) de antiargentinianismo (neologismo presente). Eu nunca consegui odiar o futebol e a Seleção Argentina. Até porque diversos craques da minha geração eram argentinos. Não bastasse isso, tive o privilégio de ter morado lá durante alguns meses e testemunhei o respeito que eles (a maioria) têm pelo povo e pelo futebol brasileiro, e por mais que morram abraçados com a máxima de que Maradona foi melhor do que Pelé, eles entendem que somos gigantes… e respeitam, por mais que um ou outro teime em não admitir. 

Agora vejo o mesmo do lado de cá: gostando ou não dessa conquista no Catar, temos que respeitá-los. Chegaram em duas finais nas últimas três edições, e levaram uma, a mais brilhante. Desmentiram Mbappe sobre os europeus serem favoritos coroando a inquestionável carreira de Lionel Messi, sete vezes melhor do mundo e agora, aos 35 anos, melhor jogador da Copa do Mundo de 2022 (já havia sido em 2014) e campeão mundial com sua pátria. Aliás, Leo nunca me pareceu tão argentino (como já questionado popularmente), brigou contra os holandeses, catimbou, lutou, não cedeu quando recebeu faltas e até se emocionou… sem contar que colocou a bola debaixo do braço e foi!

É importante salientar que toda a equipe da argentina foi valente. Estreou com derrota inimaginável para Arábia Saudita por 2×1 de virada, mas soube lidar com a derrota, evoluiu a cada jogo e atingiu o ápice na melhor versão da Pulga, assistido por grandes atuações do goleiro Emiliano Martinez (Luva de Ouro), dos experientes Otamendi e Di Maria (também marcou na final), do raçudo De Paul, das jovens promessas Enzo Fernández (prêmio de revelação) e Julián Álvarez, como de todo esquadrão comprometido em cumprir as ousadias do jovem treinador Lionel Scaloni que inovou rodada a rodada. Ainda assim, o gênio de Rosário foi protagonista participando de 10 gols e encerrando a campanha como vice-artilheiro e líder em assistências.  

Com esse título, Messi crava o nome na história de vez. Conhecendo um pouco da paixão deles por esse esporte contagiante, imagino que haverá quem vai passar a dizer que Messi é maior do que Pelé, e depois dele vem Maradona (único que tem uma igreja e religião dedicada ao seu nome [por enquanto]), mas esse tipo de blasfêmia eu deixo passar, porque apesar dos pesares, faltariam ao menos dois mundiais para ele(s) se igualar ao Rei, fora outros detalhes que não cabe discutir aqui, afinal, a festa agora é deles. E merecida. 

Vale ressaltar que apesar da taxa de alfabetização ser considerada ótima (97%), o povo argentino é “tão sofrido” quanto o nosso, haja visto que a pobreza atinge 36,5% da população e o percentual de domicílios abaixo da linha da pobreza chega a 27,7% segundo dados divulgados em setembro pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (fonte: valor.globo.com), sem contar na inflação massacrante que se aproxima dos 100% (INDEC). Ademais, dezembro costuma ser um mês ainda mais difícil por lá em decorrência do “Corralito” (crise econômica iniciada em dezembro de 2001), logo, essa conquista tão animadora para todas as camadas da sociedade tende a trazer alívio num mês de tendência conturbada.

Assim sendo, Messi sai amado e venerado pelos seus compatriotas. Cativou de vez a afinidade com seu país e seu povo. Primeiro, ele foi o craque da Copa América vencida no Brasil (2021) contra nossa seleção em pleno Maracanã, quebrando jejum de  28 anos sem título (primeira conquista de Lionel com a camisa nacional). Agora, mais uma vez foi o craque, porém, de algo ainda mais grandioso, conduzindo-os à glória planetária após 36 anos do Mundial de 1986 protagonizado por Maradona (muito lembrado e homenageado pelos campeões e devidamente exaltado no canto mais popular da torcida, seguramente tem a mão dele ai). 

Não bastasse isso, Messi se tornou o jogador com mais partidas em mundiais (26 participações) superando o alemão Lothar Matthaus (25 participações), ultrapassou Gabriel Batistuta como o argentino que mais marcou gols em copas (acumula 13 gols), maior participação em gols (21) e é o único jogador a marcar em todos os jogos do mata-mata numa única edição. Para chegar ao Olimpo, o novo D10S argentino demorou 6.972 dias (19 anos, um mês e dois dias desde a sua estreia), 1003 jogos, 793 gols e 7 títulos de melhor do mundo para ganhar a Copa (ainda dá, @Neymar!). 

Agora, a lista de maiores jogadores da história tem um reforço de peso para reafirmar o talento sulamericano no esporte inventado por eles lá. Messi ocupa cadeira cativa ao lado de Mario Kempes, Maradona, Pelé, Zagallo, Garrincha, Romário, Ronaldo, Rivaldo e alguns outros que figuram com outros poucos europeus tão gabaritados. Nossa autoestima foi recuperada, não em verde e amarelo como gostaríamos, não em vermelho e branco como gastariam os peruanos, mas com as cores, sotaques e orgulho latino-americano. Graças a D10s, Mbappinho estava errado. Agora são 10 títulos para nós contra 12 deles. 

Eai, Neymar? Bora se inspirar no parça, buscar o hexa em 2026 e reservar uma cadeira nessa divina lista ai?

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