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Redescobrindo o Brasil na Costa do Descobrimento, em Porto Seguro/BA

Há ao menos três versões sobre o descobrimento do Brasil. A oficial e difundida nas escolas é aquela que defende Pedro Álvares Cabral como o descobridor de fato. E é nesta versão – baseada na carta de Pero Vaz de Caminha – que vamos debruçar aqui, já que sinto-me no dever de compartilhar as experiências enriquecedoras que testemunhei na Bahia (minha primeira vez no estado). 

Tive o privilégio de conhecer a “Costa do Descobrimento” (ou Costa do Achamento para alguns), neste julho pandêmico de 2021. A área fica no Sul da Bahia, mais precisamente na antiga capitania de Porto Seguro, hoje dividida entre os municípios de Prado, Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália. Apesar do inverno, a temperatura estava bem agradável com média de 25°C.

Mirante do Centro Histórico de Porto Seguro

Mesmo tendo desbravado lugares incríveis, contudo, não vi o Monte Pascoal que foi o primeiro pedaço de terra avistado desde o mar pelos portugueses, mas valeu demais a pena ter visitado os distritos de Porto Seguro e “redescoberto” tanto o Brasil como a mim mesmo (por que não?). 

Sempre imaginei que Porto Seguro fosse um lugar de curtição com praias paradisíacas e afins, entretanto, vai muito além. A riqueza cultural, os centros históricos, as praias celestiais e os mirantes esplêndidos fazem de Porto Seguro o local mais importante da história do país, simplesmente por ter sido o berço do descobrimento, o início de tudo (minha modesta opinião). 

Praia de Pitinga – Arraial D’Ajuda

Visitar Porto Seguro é visitar nosso passado e reviver nossa história. Do topo de cada cidade-alta eu ficava mirando o horizonte azul-esverdeado do mar multicolorido imaginando a frota de Cabral (composta por nove naus, três caravelas e uma naveta [para mantimentos]) que partira de Lisboa rumo à Calicute, na Índia, e tomara rumo que mudaria a configuração do planeta. 

Você sabe o porquê do nome Costa do Descobrimento? 

Vista do Memorial da Epopeia do Descobrimento – Praia de Curuípe

A Costa do Descobrimento é justamente aquela pela qual os portugueses foram contornando as praias até acharem um “Porto Seguro” para desembarcar a frota completa em terra firme. Assim sendo, ao avistarem o Monte Pascoal (que leva este nome por ter sido visto no período da Páscoa – 22 de abril), próximo à região de Caraíva, foram contornando a beira-mar até o lugar batizado de Porto Seguro. 

Disputam a primazia de ter sido o local da chegada dos portugueses os municípios de Prado, Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália, que abrangem os distritos de Caraíva, Trancoso, Arraial D’Ajuda, Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália. Todos são próximos uns dos outros (considerando que Porto Seguro tem 85 quilômetros de costa) o que torna relativamente fácil visitar cada um deles.  

No entanto, Santa Cruz Cabrália garante o protagonismo do lugar onde foi rezada a primeira missa no Brasil, na praia de Coroa Vermelha, celebrada pelo frei Henrique Soares de Coimbra no dia 26 de abril de 1500, presenciada pela frota de Cabral – e vigiada pelos nativos de longe – em graças à descoberta da Ilha de Vera Cruz que, tão logo, notariam ser um território abundante do precioso e versátil Pau-Brasil. 

Neste local, na Praia da Coroa Vermelha, foi rezada a primeira missa do Brasil em 26 de abril de 1500

Os centros históricos da região

Santa Cruz Cabrália 

Cabrália foi fundada em 1535 pelo capitão donatário da capitania de Porto Seguro Pero do Campo Tourinho. Seu centro histórico foi construído estrategicamente na elevação de 40 metros com mirante para o mar, já que a vista permitia ampla visão da costa para garantir maior proteção contra os ataques de corsários e contrabandistas de pau-brasil.

Na praça matriz está a Igreja Nossa Senhora da Conceição (padroeira do Brasil antes da descoberta de Nossa Senhora Aparecida), reconstruída no início do século XVIII, bem como a Casa de Câmara e Cadeia datada do final do mesmo século. De lá são apenas 9km de distância à Praia de Coroa Vermelha, meca do cristianismo em terra brasilis.  

Porto Seguro

O centro histórico de Porto Seguro tem uma energia única, além de imprimir heranças coloniais em cada canto de seu território. Assim como os demais centros históricos da região, este fica na “cidade alta”, em um mirante com vista privilegiada para o mar, da mesma maneira à parte baixa da cidade. O local é tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional desde 1973, igualmente reconhecido como Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO desde 2000.

Cercado por construções do Século XVI, lá está o importante Marco do Descobrimento, que é um monumento de mármore (trazido via caravelas) que fincaram as raízes da colônia oficializada pela família real portuguesa. Destaque também para a Igreja de São Benedito (construída pelos jesuítas em meados do século XVI), à igreja Nossa Senhora da Pena e à Casa de Câmara (que hoje abriga o Museu de Porto Seguro, fechado em decorrência da pandemia). 

Arraial D’Ajuda

A tradição cristã em consequência da vinda dos jesuítas instalados na cidade em 1549 dá o nome à região. Ajuda era, inclusive, o nome de uma das naus que chegaram ali. Desta maneira, a Igreja Nossa Senhora D’Ajuda, iniciada em 1550, está localizada na praça matriz, acompanhada por um monumento semelhante ao Cristo Redentor do Rio de Janeiro, porém, em proporções bem menores. 

O centro fica igualmente sobre um mirante de onde é possível avistar boa parte da costa local. Ademais, ao redor da igreja há diversos comércios que oferecem as mais variadas opções de presentes, em sua maioria peças artesanais. E a hospitalidade alegre do povo local é um convite genuíno para ficar à vontade. 

Trancoso

Em Trancoso, o centro histórico é conhecido como “o quadrado de Trancoso” por se tratar de um quadrado enorme, formado por vasto gramado ao meio e casas coloridas ao redor. Há quem defenda que foi no Rio dos Frades, não distante dali, que a esquadra de Cabral desembarcou pela primeira vez, mas não há nenhuma placa histórica exposta no pedaço que defenda esta tese. 

Assim como os demais distritos mencionados anteriormente, Trancoso era igualmente uma aldeia jesuíta, denominada São João Batista dos Índios, fundada em 1586. Ao fundo da vila está a Igreja São João Batista, de costas para o mar, proporcionando visão panorâmica da Praia dos Nativos e da Praia dos Coqueiros. De acordo com o guia turístico, o local é bem frequentado por famosos e tem um dos metros quadrados mais caros da Bahia. 

Visita à aldeia dos indígenas Pataxó

Estando em Porto Seguro é possível agendar uma visita à aldeia Pataxó, instalada na Reserva da Jaqueira, aproximadamente 10km do centro. A área de preservação é um local sagrado para a etnia, que tem 830 hectares de terra demarcada na qual habitam 34 famílias que seguem conservando alguns costumes milenares dos povos originários. 

A experiência de estar entre essas famílias e de acompanhar alguns dos costumes e rituais (como o Awê – Ritual de agradecimento [feito em Patxohã – língua nativa]) foi extraordinária. Na Reserva da Jaqueira os residentes contam histórias sobre seu povo, sobre seus costumes, bem como reforçam suas lutas com o governo visando a manutenção de sua gente, bem como de todos seus protocolos. 

Além de mergulhar na cultura indígena, eles também falam sobre suas hierarquias e levam os convidados numa trilha mata adentro para conhecerem as armadilhas usadas para caçar. Além do mais, oferecem degustação de chás, legumes e prova de Tainha (peixe) assada em folha de patioba. 

Apesar de estarem espalhados pela Costa do Descobrimento, não foram os Pataxós os primeiros indígenas a terem contato com os portugueses, e sim os Tupinambás. Outrossim, seja qual for a etnia, ter mergulhado nessa cultura e sentir os sabo(e)res puros da mãe terra na presença dos nossos irmãos certamente me mostraram um dos milhares brasis que eu ainda não conhecia e seguramente valorizarei e respeitarei ainda mais depois desse mergulho cultural. 

Do passado ao presente

Em tempos de pandemia, estamos vendo uma das mais fervorosas polarização política do país, e para isso também há um histórico (mais recente) que nos permite compreender a situação atual do país, basta ter um pouco de disposição e mente aberta para fazer pesquisas em livros ou websites seguros sobre os acontecimentos, diferentemente de 521 anos atrás.

Digo isso porque fico incomodado quando vejo o Presidente da República ou algum candidato à querendo me dizer que quem não confia nele(s) não ama o Brasil. Apropriar-se da bandeira nacional se dizendo “patriota” e convocando pessoas de verde e amarelo para saírem às ruas em seu apoio não vai diminuir meu espaço, essas cores também são minhas, como de qualquer outro guerreiro que ama sua pátria. E isso também cabe a qualquer outro que queira “pintar” o Brasil diferente do que eu me esforço para conhecer cada vez mais.  

Ter conhecido e me aprofundado um pouco mais em nossa história sob a perspectiva de Porto Seguro-BA fortalece ainda mais meu elo particular que tenho com o Brasil. Devido a situação sanitária atual, alguns museus como o Museu de Porto Seguro estavam fechados, o que foi uma pena. Por outro lado, a maioria dessas atrações são em locais abertos e é possível visitá-las com segurança. 

Réplica da nau de Cabral exposta no Memorial Epopeia do Descobrimento

Certamente, em outros tempos eu teria ficado mais tranquilo e confortável em turistar sem máscara mostrando o sorriso aos alegres baianos que cruzei no caminho, já que foram extremamente receptivos. Porém, acredito que meus olhos tenham cumprido bem essa função de retribuir toda gentileza e acolhida.

Espero que mais pessoas conheçam este lugar excepcional (como tantos outros a visitar), desvendem seus mistérios e redescubram seus brasis e si próprios. Assim, tirarão suas próprias conclusões de como é o país que vivemos, de tudo o que passamos e qual Brasil queremos para viver em condição mais humana, mais empática e de menor desigualdade possível.   

Desfecho sobre a visita ao berço do descobrimento do Brasil

Poder refazer com minha família os caminhos descritos por Pero Vaz de Caminha na Carta do Descobrimento, além de visitar os centros históricos das “cidades altas” da região, ter contato com os indígenas Pataxó, testemunhar a arquitetura local fortemente influenciada pelos colonizadores e desfrutar da hospitalidade incomparável dos locais foi uma redescoberta pessoal de um Brasil que enche-me de orgulho e ESPERANÇA.

Capela de São Benedito e Ruínas do Colégio Jesuítico no Centro Histórico de Porto Seguro

Estou cada vez mais convicto de que é necessário conhecer o passado para compreender o presente e otimizar o futuro, pois o povo que não sabe de onde vem, dificilmente saberá para onde vai.  E para isso não é necessário estar em Porto Seguro, já que diversos livros nos levam à essa terra, como em tantas outras, afinal essa é uma das magias da leitura, nos transportar para onde a imaginação nos permitir levar. Mas, quem puder visitar e conhecer a Rota do Descobrimento, visite porque é impagável!

Dicas e estimativas de preços: 

  • Visita ao centro histórico de Porto Seguro: Grátis; 
  • Visita ao centro histórico de Arraial D’Ajuda: Grátis (para chegar, é necessário pegar a balsa que parte do centro a R$5 mais uma lotação [van] de R$7 até as praias ou até o centro. A praia que indico é a praia de Pitinga, próximo às falésias;
  • Visita ao centro histórico de Trancoso: Grátis (contratei uma agência de turismo que cobrou R$80 por pessoa – trajeto de aproximadamente 1 hora de ônibus + guia turístico); 
  • Visita ao centro histórico de Santa Cruz Cabrália: Grátis (Chegada via ônibus intermunicipal – R$5,90 a passagem, cerca de 30 minutos do centro de Porto Seguro);  
  • Visita à aldeia Pataxó com guia: R$90 por pessoa (15 minutos do centro de Porto Seguro – contratei agência);
  • Visita ao Memorial Epopeia do Descobrimento: R$30 reais (5 minutos de uber do centro);
  • Seis dias foram suficientes para conhecer tudo e ainda curtir as praias com a família;
  • Ficamos hospedados no centro de Porto Seguro e recomendo. Quanto mais ao centro próximo à Av. Navegantes ou à Passarela do Descobrimento, melhor;

E já que falamos em livros e viagens, aproveito para indicar a leitura do meu ebook A Carta Sem Destino disponível no site e na Amazon ou adquira seu exemplar impresso e boa leitura!

2 thoughts on “Redescobrindo o Brasil na Costa do Descobrimento, em Porto Seguro/BA”

  1. Sheila Nascimento

    Texto enriquecedor. Nossa história é muito interessante. Agradeço também pela dicas.

  2. FLAVIO SARMENTO BARBOZA

    Mais uma viagem nas letras com Fagner Nascimento. Sempre reconceituando o termo “riqueza”. Parabéns, mano!

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