Um ano de confinamento depois…

Passado mais de um ano depois do primeiro anúncio de confinamento no Brasil, o país se tornou o epicentro da pandemia graças a cadeia de desgovernos, e seguimos…

No dia 23 de março completou um ano que São Paulo decretou a primeira quarentena em consequência da proliferação desenfreada do coronavírus, atualmente mais conhecido do que na época. Lembro-me bem dessa data porque justamente nesse dia eu começaria em um novo emprego no qual completei um ano e até hoje não conheço pessoalmente a maioria dos colegas com quem trabalho, desde então é tudo remoto, à distância em consequência do confinamento.

De lá para cá, o povo vem testemunhando desgovernos atrás de desgovernos. A consequência disso está aí: o Brasil é mais uma vez protagonista no cenário global: fez por onde se tornar o epicentro da pandemia no mundo, ou seja, temos conhecidamente a pior gestão no combate ao Covid-19, e além de nós mesmos (ao menos os que se propõem a entender o momento), o mundo todo está vendo. Destrincharemos, então, de maneira resumida os diferentes níveis de desgovernos que temos presenciado até aqui.

Esfera Federal

Desde o primeiro momento tivemos um presidente que menosprezou o vírus, negou veementemente a gravidade da situação e não foi capaz de dar o braço à torcer em momento algum, abraçado com sua ideologia numa mão e a caneta noutra. Nesse período, inclusive, trocou o Ministro da Saúde (foco do tema [saúde] abordado) TRÊS VEZES. Chegou ao ponto de recusar 70 milhões de vacinas oferecidas pela própria fabricante Pfizer em agosto, e agora não há como escapar da corrida/leilão global. Ficou tarde. Recentemente perdemos o posto de epicentro da doença para a também emergente Índia que possui população seis vezes maior (1,36 bi) do que a do Brasil (211 mi);

Esfera Estadual (usando como referência São Paulo – o estado mais afetado)

O governador do estado, por sua vez, não pode ver um microfone aberto que já expressa seu termo favorito desde que anunciou o primeiro confinamento do estado: “com base na ciência!”. Contudo, ele deu às costas à sua idolatrada ciência nas vésperas do carnaval de 2020, fez campanhas para que as pessoas saíssem às ruas e seguissem seus bloquinhos favoritos, e ainda comemorou o recorde de foliões nas ruas: o maior carnaval do país. Um ano depois, o estado atingiu 2,77 milhões de casos e ultrapassou as 90 mil mortes em consequência do vírus, superando em vidas perdidas diversos países mais populosos do que o próprio estado como é o caso de Turquia, Colômbia, Argentina, África do Sul dentre outros. Os hospitais de campanha foram desativados em setembro e depois de tantas vidas ceifadas, estão voltando à passos lentos sete meses depois (a exemplo do Hospital Santa Cecília que está com 60 leitos, sendo 20 deles de UTIs). É o estado com o maior número de mortes no mundo, à frente até de Maharashtra (61,5 mil casos) da Índia, atual epicentro;

Esfera Municipal

Já o prefeito sancionou aumento do próprio salário em mais de R$11 mil às vésperas do natal, num contexto atormentador no qual o país vive o maior índice de desemprego de todos os tempos. Azar de quem é pobre e não tem de onde tirar seus privilégios. Além disso, ele é representante do grupo de risco, igualmente incentivou a folia no carnaval do ano passado e, por cima, protagonizou o belo exemplo de estar presente no estádio do Maracanã, na final da Libertadores no dia 30 de janeiro entre Santos x Palmeiras, rodeado por cerca de outras oito mil pessoas que estiveram presentes (independente do atual estado de saúde dele [grave], está sendo abordado aqui o campo gestacional como prefeito]. Hoje, os leitos de UTI na Grande São Paulo seguem em colapso, próximo aos 90% de ocupação. A cidade é líder no ranking nacional do número de casos (+690 mil), assim como no número de mortes (+26 mil);

E a esperança, vem de onde?

A cada nível administrativo, um desgoverno. Claro que cada região tem sua particularidade, e esse terceiro funil é sobre a maior cidade do país. Entretanto, se considerarmos o macro, a lama tá em toda parte (ou na maioria delas), já que diariamente recordes (tristes) estão sendo batidos. Não tem como defender nenhum dos lados, os fatos estão aí e só não vê quem não quer. Não adianta blindar a mente e esbravejar que um governante está certo ou outro está errado, e que não há o que fazer. Há sim! Bastaria uma palavra mágica, doce como o açúcar: UNIÃO!;

Passou da hora de adotar uma política de isolamento eficiente, concedendo auxílio emergencial aos grupos que já estavam sendo beneficiados e tiveram seu (baixo) apoio financeiro ceifado em dezembro. Coincidentemente, de lá para cá, a coisa que já estava feia desandou de vez porque o povo precisou ir às ruas atrás do pão de cada dia, logo chegamos ao ponto em que estamos. Perdemos mais vidas diárias do que qualquer um dos outros 193 países do globo. Deveríamos considerar isso como algo normal e seguir como se nada estivesse acontecendo?

Coreto ainda mais bagunçado

Embaralhando ainda mais as cartas, recentemente o ex-presidente Lula teve seu processo da Lava Jato cancelado pelo ministro Fachin, o que o torna elegível para disputar as próximas eleições presidenciais (até o momento). Foi-se possível medir a temperatura de amor e ódio imediatamente, tanto nas redes, quanto nos lares e afins. Justamente essa divisão de sentimentos torna claro que, uma possível eleição do maior líder popular que o país já teve nos últimos tempos (não é opinião, é fato!), isso alimentaria ainda mais o ódio daqueles que são favoráveis ao governo atual ou àqueles que simplesmente têm repulsa ao líder petista.

Dessa forma, novamente o país ficaria num total desequilíbrio. Amor de um lado, ódio do outro. Como acontece hoje, só que invertido. E a união? É de comer, assim como o açúcar? Talvez eu esteja alimentando o lobo errado dentro de mim para disparar as teclas “desgovernadamente” de maneira insossa, mas não consigo achar que essa polarização seja benéfica nesse momento tão sensível onde as vidas dos nossos semelhantes estão sendo, muitas vezes, colocadas em segundo plano… até desconsideradas/ignoradas em algumas ocasiões.

Sei que é utopia demais pensar que com #união poderíamos mudar o jogo, até porque, para citar um exemplo, a porcentagem de pessoas que atacam a mídia dizendo que só há mentiras sendo veiculadas é absurdamente alta, e claro que há reflexo direto do atual líder da nação e seus progenitores nisso. Assim dito, pergunto-me em voz alta: em qual tipo de veículo essas pessoas acreditam? Qual é o tipo de conteúdo que consomem? Quais os programas de tevê ou jornais que optam por acompanhar? São eles partidários? Passam credibilidade? Ou essas pessoas se isolam de tudo isso e pensam assim porque sim e ponto? E os livros, artigos e curiosidades gerais… leem? Se informam? Acreditam em tudo? Se dão o trabalho de apurar ao menos uma ou outra pauta?

Vacina ainda muito à quem

Créditos foto: Facebook oficial Ministério da Saúde

Caminhando para o fim, ainda acredito que poderíamos mudar o jogo, mas não consigo pensar em outra alternativa para isso se não com a junção de forças em prol das vidas. Daí, depois que tudo isso passasse, que os polos se explodissem cada um no seu lado, mas não deveria ser agora, não assim. Até o momento o país aplicou a vacina em 16,02% da população (fonte: operamundi.uol.com.br) e dentre os emergentes está atrás de China (195,02 mi) e da Índia (195 mi) no número total de vacinados, já que tem registradas 33,81 milhões de aplicações do antidoto. De acordo com reportagem da CNN exibida em fevereiro, um estudo matemático da USP conduzido pelo microbiologista Luís Gustavo de Almeida aponta que o Brasil corre o risco de levar quatro anos para ter todas as pessoas acima de 18 anos vacinas.

Questiono-me (outra vez) então: valeu a pena os cientistas trabalharem incansavelmente para descobrirem a vacina em tempo recorde? Valeu a pena sustentar a ideologia/discurso político e não dar o braço a torcer em prol de imunizar o maior número de pessoas o mais rápido possível? Nenhuma briga ideológica ou birra política vale a pena quando o que está em jogo é a vida do cidadão comum. Que seja um, quanto mais 374.682 (OMS).

Aproveito para finalizar aqui com as frases ditas pelo Presidente da República que mais me chocaram e doeram. Não sou a favor do impeachment nesse momento, até dei chances de ouvi-lo, esforcei-me demais para tentar entender sua maneira de conduzir o país até certo ponto, mas me machuquei demais depois dessas frases abaixo. Doeu e dói diariamente. Esgotei-me, não é pra mim (nunca foi). O Brasil tem as melhores pessoas do mundo, e elas estão morrendo!

24/03/2020 – “Gripezinha”, “Graças ao meu histórico de Atleta”, “Verdadeira histeria”: 46 mortes;

29/03/2020 – “Todos nós vamos morrer um dia”: 136 mortes;

10/04/2020 – “Parece que está indo embora essa questão do vírus aí”: 1,2 mortes

20/04/2020 – “Eu não sou coveiro”: Brasil 2,5 mil mortes;

28/04/2020 – “E dai? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou o Messias, mas não faço milagres”: 5 mil mortes;

10/11/2020 – “O Brasil deveria deixar de ser um país de marica”. “Mais uma que o Bolsonaro ganha”: 162.829 mortes;

04/03/2021: – “Chega de frescura, de mimimi”, “Vacina só se for na casa da sua mãe”: 259.271 mil mortes;

#374682vidas #vidasimportam #luto #desgovernos

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